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O relógio da chuva.

De rompante, o hoje virou ontem. O tempo flutuou para o longe. E sabe-se lá, onde esse longe há de chegar? O incerto, virou certo. O correto do inverso que o estranho, conheceu. Se esqueceu. E quando encontrou, se perdeu. Confundido continuou caminhando. Nossa alma é pedra, a carne é pano. Em um mundo de fantasia, a realidade imita a arte. E a vida imita quem? De tudo que nós fizemos, a única certeza é de que nada é certo. E todos somos, ninguém.

Forasteiro, de flor e cheiro.

Dia cinza, longas datas se passaram. Eu nem aqui. Talvez você nem aí. E a gente, acabou que nem foi. Ficamos sós? Quem fica só? Ninguém sabe pra onde ir. O caminho chama, e vai quem foi. Fica quem está. Tudo é presente, já disse e me repito. O mundo gira sem parar, por nem um minuto. Todo dia é dia. Toda noite é escura. Sobe o sol e descem tantas luas. Voa um pássaro para o ninho. Foge outro querendo ficar sozinho. E as ondas dos oceanos que nunca terminam. Sempre indo e vindo. Dando sentido ao fluxo contínuo. Ao eterno mover do que é vivo. Seja a folha que dança ao vento. Sejam as pernas que dançam a música em hipnotizante movimento. E as gotas da chuva que te molham. Rasgam o céu em silêncio. E explodem em destempero. Criando poças e fazendo correr as moças. Abrindo os guarda-chuvas. Encharcando as roupas nuas. E escorrendo para além de onde nossos olhos veem. Descendo fundo na terra. Por entre as rochas, raízes e cadáveres. Até onde é estranha ao mundo. Onde não é mais água. Mas é v...

O frio, o café, a janela e a saudade.

Se não fosse por acaso, seria  por destino. Eu penso que o acaso seja o destino que todo mundo tem. Todo mundo tem acaso. O acaso sempre vem. Sorrateiro, silencioso e imprevisível também. Enquanto eu escrevo na minha tela acesa, tento não olhar para as teclas do teclado. Sou de 1982, nós somos as crianças que fizeram curso de datilografia no colégio. Usamos os dedos mindinhos para digitar. Fomos aqueles que começaram a ter internet no celular. A gente via o mundo de outro jeito. Ou o mundo era mesmo mais devagar. Lembro de precisar pesquisar conteúdos nas bibliotecas. Eu não sabia, mas já me sentia em Hogwarts. Caminhando por entre os corredores gigantescos cheios de livros antigos e cheios de pó. Fui criança até muito tarde, ou talvez hoje elas sejam até muito cedo. A vida adulta demorou pra chegar, e eu nem a vi entrar. Era como ser criança para sempre. Ralar o joelho correndo livre. E dormir sem escovar os dentes. Era acreditar na lenda da loira do banheiro, nas histórias do vel...

Não fode.

Acordei estuprado. Fui vítima da ignorância. Igual a você, sua mãe, seu irmão e sua avó. O motivo do meu medo, não é de ser estuprado de novo. Não, eu tenho mais medo de ficar igual a todo mundo. De concordar com a idéia que a culpa do estupro é da minha roupa. É do meu sexo frágil. É da minha escolha. Que a culpa é minha. A culpa não é minha. Mas pode ser de tanta gente. Que eu nem saberia por onde começar. Mentira, saberia sim. A culpa é de quem passa a mão na minha bunda. De quem chupa os dentes ao me ver passar na calçada. A culpa é de quem acha que pode me comer porque quer. A culpa é de quem ensinou para os filhos que mulher é menor que homem. A culpa é de quem já levantou a mão para a esposa, namorada, noiva, ficante ou desconhecida. A culpa é nossa. E não adianta não ver a culpa para ela não ser tua. A culpa te acha. Te droga. E te estupra enquanto tu dormes. Amanhã, vais ter filhos da culpa. Seu filho da puta!

A lembrança do nosso esquecimento será assustadora.

Era silencioso. Eu não era medroso. Mas tinha medo. Como criança assustada. Quando a noite te cala. Quando o dia não vem. E a penumbra era tudo que te restava. Onde eu havia me metido? Tanto, terror. Tanto, que agora era nada. Ouvi o choro sofrido de um de nós. Corri, sem caminho. Sempre sozinho. Até encontrar. O mundo. Num vaso de planta. Esperei a semente crescer. E fui o que sou. Aqui estou. E agora vou.

Pra ver a minha dor passar...

Foi na batida do repente imaginário, que meu mundo girou. Veio a baixo a estante. E a linha reta entortou. Bateram na minha porta de madrugada. Era a solidão de saco e mala. Tomando seu lugar a mesa de jantar. Cantando antigas cantigas esquecidas de ninar. Eu não dormi até ela chegar. E nunca mais consegui me acordar. Passou o dia e a noite veio. Só para outro sol nascer, em total silêncio. Pássaros que não cantam e não voam nos observam, a respirar. Empilhamos nossos cadáveres nas ruas, exibindo nossa ignorância mortal, pra quem passar. Somos pó no deserto do existir. Chamamos de futuro tudo aquilo que está por vir. De passado, o que se foi. E o presente não existe. O presente é a mais pura das ilusões. Uma alucinaç ão coletiva tão profunda que nos impede de ver o mundo como ele é. Vivemos a perturbação como se fôssemos parte dela. As maiores constantes do mundo são o vento e a morte. Sempre haverá vento e morte. Todo lugar é o mesmo lugar. Todo amor é o mesmo amar. Todo viver é o me...

Introdução.

Eu fiquei confuso ao escrever sem fuso. O céu azul me corrigiu, há frio. O café é quente. Meus cigarros são pacientes. Tive uma idéia idiota. Ou talvez só queria contextualizar a palavra demente. A vida é rara, diz a NASA. A vida é tão rara, disse Lenine. Eu sofro pra lavar minhas mãos no inverno. E sinto falta do abraço materno. Me confundi desenhando na parede. Achei que era criatividade, mas foi só sede. Enquanto o dia amanhece eu vejo as barras de renders de computadores correndo frenéticas por suas telas. Já já todo esse lado do planeta vai despertar. Imagine só, todos os olhos que se abrem em perfeita sincronia. E eu imagino como Machado de Assis leria o que eu escrevo, tanta diacronia. Tanta raiva nas ruas. Da janela eu vejo a linha do horizonte. Ela tá logo ali. Escondida atrás de um monte de terra. Já vi ela. Ela tá ali. Minha xícara de porcelana branca tem padrões formados pelo que restou do café nela. Um dos desenhos parece um rosto triste. Outro olhos que choram. Eu preciso...