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Para um mundo cheio de idiotas.

É como os Hermanos que são Los, disseram, não se atreva a me dizer do que é feito o samba. Seu vacilão. Eu não me importo com dinheiro, não vai adiantar me dar o endereço da tua cobertura. Isso não vai me impressionar. E tenho coisas mais "Leminskianas" para me importar. Vou preferir trocar esse teu carro importado último modelo do universo, por um por do sol ao lado de uma gentil companhia. Vou escutar Sigur Rós até meus ouvidos sangrarem, mas me recuso a acompanhar essa vida patética que a midia social te forçou a ter. Cheia de selfies e nudes na rede. Cheia de sertanejo universitário que se formou por dinheiro para viver as custas do papai e do titio. Na verdade, dessa vida digital, eu não quero nada. Só me deixa alguns bytes para publicar meus textos, e vai embora. Podes ir. A sensação da tua ausência é tão leve que chega a ser benéfica. Fica gostoso estar sozinho. Fica suave e delicado de um jeito bonito. Tu não aprendeu a lição, então repito: ser de verdade significa qu...

Chova-se.

Ao derramar Nos foge o verbo Daqui eu vejo Me esqueço E aqueço Nos lembro Dia e noite são  começo Criando palavras me perco Da chuva sou pingo Da luz sou risco Na noite eu pinto Na luta percebo Verdades mentidas Caminho entre A morte e a lida Tudo é entrada e saída Se há sentido: chova-se a vida.

Um pouco do que é soul.

Manda um beijo para ela. Diz que eu espero que esteja tudo o mais bem possível. Somos daquelas pessoas que sabem que a vida pode ser bem cruel. Nos alegramos com muito pouco: um nascer do sol bonito. Um doce inesperado. Um café em um sábado preguiçoso. Diz que a vida vai ser gentil. Ela vai saber que talvez não seja, mas vai gostar de te ouvir dizer isso. Diz que a vida é mais vida de manhã. Que na entre leitura do universo, na semiótica da existência, o nascer do sol tem significados lindos. Começo e recomeço. Esperança na chegada da luz. Princípio de existência. Primeira página de livro que queríamos muito ler.  O novo. Que se repete a milhões de anos. Mas que continua sempre novo. Violão folk e essa chuvinha. Meus projetos renderizam e esperam em arquivos do word para sairem do papel. Mas eu tenho pensado em outra vida. Nos caminhos além das montanhas. Em céus diferentes. E no mesmo sol. Alguém algum dia, me disse que isso é um teste. Que estamos todos no Show de Truman (agora ...

Choveu cinza naquele dia.

Se fosse tudo preto e branco, consegues imaginar? O mundo em um rolo de filme antigo. Com frames faltando. Com cabelos na projeção. Ao melhor estilo do filtro "old movie". O céu seria branco de dia e negro e noite. Nada de animações 3D mirabolantes. Dei um command+R para renderizar meu projeto e corri para cá. Para escrever um texto em 8 minutos. E nem sei se dá. Pensei sobre o presente, tentando encontra-lo. Tudo é futuro e passado. Se tu parares para pensar sobre isso. O presente é uma idéia do cerebro tentando controlar o universo. Talvez seja isso que fode todo o resto. Se a gente conseguisse esquecer desse controle por alguns instantes, tenho certeza de que veríamos muito além dos nossos olhos. O passado é esse grande arquivo seletivo onde guardamos as nossas memórias arco-iris e unicornios dançarinos. Nossas gargalhadas lindas e nossas melhores gozadas. E lá que vive tudo de bom que já fizemos. Na verdade, a gente devia dizer para quem gostamos algo como: "- Você ...

Quem é você?

Passou por mim. Ombro a ombro na calçada.  Nos olhamos por alguns míseros segundos. Aquele olhar de quem se olha só para não se esbarrar. Ele continuou o caminho dele. Nem me viu, eu acho. Eu espero leva-lo para sempre comigo. Eu estava de sapato, ele de chinelo. Estava trabalhando. Ele tinha o rosto cansado. Eu tinha comido, e falava no celular. Ele carregava uma sacola de lixo nas costas e parecia pesado. Eu dava passos largos, tinha pressa. Ele, parecia decepcionado. Mas com o que? Comigo? Com todos nós? Ele era tão frágil. Eu acordei com meu celular tocando uma musica que pude escolher. Ele usava o sol. Sol após sol, ele já nem lembrava mais quantos eram. Filho de um João e de uma Maria. Filho de um Pedro e de uma Silvia. Filho de um pai e de uma mãe que nenhuma diferença fazia. Eu estudei a vida inteira, me formei na faculdade. Ele catava coisas da rua, tudo na mesma cidade. Quem foi que disse que seria justo? Que a vida precisa de sentido? Talvez Deus não exista, é cada um p...

(não) voltei de férias?

Não tenho medo de avião. Mas enquanto voava pensei em como seria morrer num acidente aéreo. Assim que pousamos, achei isso uma grande bobagem. No taxi que não era Ubber, mas deveria ter sido, ouvi que o país está no buraco. Nas paredes pichadas da cidade grande, muitos desenhos morriam. Até no chão tinha sangue. Nos rostos escondidos, por trás dos grandes prédios, eu via também rostos de mendigos. Uns usavam terno e gravata. Outros tinham pouco.  Poucos dentes.  Pouco o que fazer . Pouco para esperar.  Quase nada pelo que viver? Imaginei um viaduto limpo. Mas na terra do céu de concreto, não há amor. Dizia a letra do Criolo. Se há amor eu não sei. Mas aqui as pessoas não estão de férias. Eu tinha areia entre os dedos dos pés. Um copo com gelo nas mãos. Meus olhos alcançavam até a linha do horizonte. E só havia água. Sol forte. Céu azul. Na cidade grande, da fumaça e do fuzil. Eu uso óculos escuros com medo de ser assaltado. Da violência que eu vejo na rua, espero que ...

Eu vou guardar tudo o que eu escrever só para mim.

Eu disse que as palavras me fugiram. Escrevi isso em um bilhete e o guardei. Perdi o bilhete e depois o encontrei. Não entendi o que eu quis dizer. Então o rasguei. As palavras,  depois achei. Não entendi o que diziam. As mudei. Troquei ordem. Acentuação. E tom. Falei para mim mesmo. Usei o espelho. Vidro da janela. Disse que seria bom. Tropecei tentando. Passo é pulo da alma. O choro me enxágua. Dia e noite. Abraço de tchau. Até logo, tu me disse. Até quando perguntei. Sozinho e sem resposta. Eu fiz uma aposta. Apostei comigo mesmo que iria vencer. Assim não posso perder. Quando luto contra mim, o que sobra vai além do fim. Quando me batalho, eu mesmo me faço nascer. Como um novo começo. De páginas iniciais. Nada além de palavras. Aquelas que eu te dei. Que tanto procurei. E que ninguém mais tem.