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A mostrar mensagens de setembro, 2018

Sobre ser cego e ver.

Sentei porque queria escrever um verso que a tempo me persegue. Mas meus dedos se recusam a me obedecer. Tento desenhar, ligo alguma música e mergulho no meu fone de ouvido. Enquanto afundo, olho para a distância da superfície aumentando e sinto minha alma e minhas vísceras indo em direção ao desconhecido. Eu gosto. A força da gravidade não impede o espírito de sonhar. - ouço uma voz me dizer. Eu concordo. E lá se vai a realidade nas águas turvas desse oceano de pensamentos e sentimentos soldados como moléculas de água. Dentro desse líquido transparente eu vejo tudo distorcido. Seria isso um útero? Suspiro uma respiração longa e deixo a sensação de gelado me brisar ainda mais. Tenho sono. Será um sonho? Será que eu estou sonhando que estou sonhando? Tudo que tem preço, perde o valor. Vejo escrito na pichação de rua. Fica mais leve o peso do meu coração. E agora que sou mais velho, meu bom coração é mais gelado. Canta o Arcade Fire em um coro bonito e triste. Passam por mim alguns papéi...

Para onde vamos?

A democracia brasileira tomou uma facada no abdomen. Foi uma única perfuração, mas a faca rasgou fundo as suas entranhas. A democracia que estava sendo carregada, não porque fazia campanha política, mas porque já não conseguia caminhar sozinha a décadas. Gemeu de dor enquanto o aço frio rasgava seus tecidos e penetrava agudo na sua barriga. Muitos demoraram para entender o que estava acontecendo. Perseguiram e agarraram o esfaqueador. A democracia foi carregada até o hospital mais próximo. Os homens e mulheres que a carregaram gritavam palavras de ordem pelo caminho. Pedindo espaço, pedindo pressa, pedindo justiça, prometendo vingança. A democracia foi fotografada com um braço largado para baixo, sofrendo com a expressão de agonia que só quem é esfaqueado consegue fazer. A foto correu o mundo em minutos. Time, People, BBC, CNN, NY Times, The Guardian... Todos a publicaram. "Democracia esfaqueada!" - diziam as manchetes. "Hoje a Democracia brasileira foi esfaqueada na bar...

Me cabe.

A frase curta  me coube. Silencio longo, breve fim de tarde. Nesse barco a vela que navega na tempestade. Mudam-se dias e anos. E o relógio me persegue. Quanto mais eu bebo, maior é a sede. O pensamento sucinto, diz que sinto: Muito e pouco em uma palavra só. Silêncio, meu velho amigo. Faz tempo que não te chamo. Faz tempo que não te amo. Faz tempo que não clamo: lacônica é a vida. Que sem palavras é dita.