Fica mais leve o peso meu coração.
Passos sobre a calçada. Rua cheia, cidade lotada. Homem caminha, camisa e barba. Sobe e desce meios fios. Dobra esquinas, cruza pontes sobre rios. Seus pés batem o chão como um coração pulsa. Ritmo de tempo em tempo. Compasso inalterado. Fecha sinaleiro, multidão de pernas entre carros parados. Prédios e seus vãos revelam o azul do céu. Intervalos de concreto e sombras. Dobrando a vontade do sol entre dia e noite. Com portas e elevadores. Escadas e janelas. O asfalto quente castiga. O verde se encolhe por entre as frestas. E se contorce subindo os tijolos. Alguém atende a um telefone celular:
"- Alô! Não posso falar".
Sem parar de andar. Pouco tempo para pensar. No intervalo é preciso respirar. Gravatas sufocantes. Bolsas a tira colo. Passa um ônibus lotado de Marias e Joãos. Todos cansados de um dia de trabalho sem fim. Corpos violados que seguem o caminho das camas. Buscando algum sonho que valha a pena. Para suas almas que não são pequenas. Mas que vivem e morrem sobre essa vil tutela. De uma vida de esperas. Em filas e cadeiras de escritório. Em balcões e caixões de necrotérios. Tomando anti-ácidos e aspirinas para os revertérios. Buscando as luzes dos postes e das salas de jantar. Assistindo as televisões, perdendo as noites de luar. Que de tão cansados mal conseguem pensar. E se contentam em aceitar o açoite, se aliviando entre as chibatadas. Como férias programadas. Dias de praia com hora para começar e acabar. Tudo sobre a vigília daquele que insiste em ser teu dono. Que te comprou, registrou, uniformizou, programou e descartou por outro. Versão 2.3, bem melhor, vale por seis. Te deixou para trás. Te superou. Teu tempo foi para o ralo da criação. Escorrendo pelas lajotas da existência. Como água marrom que lava um corpo sujo. Que não será reaproveitada. E olhando para o chão tu percebe, que até a água escorre em fila. E que na fila da aposentadoria, tu és como água. Prestes a ser encanada. No duto que te carregará para o final da jornada. Onde esperas poder evaporar em paz.
Para chover de novo, outro dia, em outra rua. De outra cidade.
Em um outro país.
Sobre outras calçadas.
"- Alô! Não posso falar".
Sem parar de andar. Pouco tempo para pensar. No intervalo é preciso respirar. Gravatas sufocantes. Bolsas a tira colo. Passa um ônibus lotado de Marias e Joãos. Todos cansados de um dia de trabalho sem fim. Corpos violados que seguem o caminho das camas. Buscando algum sonho que valha a pena. Para suas almas que não são pequenas. Mas que vivem e morrem sobre essa vil tutela. De uma vida de esperas. Em filas e cadeiras de escritório. Em balcões e caixões de necrotérios. Tomando anti-ácidos e aspirinas para os revertérios. Buscando as luzes dos postes e das salas de jantar. Assistindo as televisões, perdendo as noites de luar. Que de tão cansados mal conseguem pensar. E se contentam em aceitar o açoite, se aliviando entre as chibatadas. Como férias programadas. Dias de praia com hora para começar e acabar. Tudo sobre a vigília daquele que insiste em ser teu dono. Que te comprou, registrou, uniformizou, programou e descartou por outro. Versão 2.3, bem melhor, vale por seis. Te deixou para trás. Te superou. Teu tempo foi para o ralo da criação. Escorrendo pelas lajotas da existência. Como água marrom que lava um corpo sujo. Que não será reaproveitada. E olhando para o chão tu percebe, que até a água escorre em fila. E que na fila da aposentadoria, tu és como água. Prestes a ser encanada. No duto que te carregará para o final da jornada. Onde esperas poder evaporar em paz.
Para chover de novo, outro dia, em outra rua. De outra cidade.
Em um outro país.
Sobre outras calçadas.
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