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A mostrar mensagens de março, 2018

O silêncioso grito do nosso desespero.

Mataram uma preta em um carro. Quatro tiros na cabeça. Quatro tiros nela, e na gente foi um escarro. Esse é aquele momento em que o nosso desespero fica mudo. Por mais que se grite a todo ar dos pulmões, o que se ouve é o silêncio profundo. E ninguém se importa com o nosso luto. "Mariele, presente!" eles trazem nos cartazes. "Mas muita gente é vítima de violência" alguns gritam vorazes. O Brasil é insaciável de heróis. Consumimos todos, sem regra. Do futebol a novela, de BBB a Brasília, de cantores a poetas, de personagens imaginários a patetas. Todos podem ser heróis no Brasil. Nem que seja por um dia, como disse David Bowie. Só que a gente subverteu a canção. Aqui o herói não funciona. Não. Aqui o herói não resgata a princesa. Princesa que você pode ter imaginado branca e vestida de rosa. Mas que eu pintei preta de piche. Pichada na parede do centro da cidade. Com algumas gotas vermelho sangue que voaram do último assassinato. E ninguém limpou. Porque limpar a par...

Fica mais leve o peso meu coração.

Passos sobre a calçada. Rua cheia, cidade lotada. Homem caminha, camisa e barba. Sobe e desce meios fios. Dobra esquinas, cruza pontes sobre rios. Seus pés batem o chão como um coração pulsa. Ritmo de tempo em tempo. Compasso inalterado. Fecha sinaleiro, multidão de pernas entre carros parados. Prédios e seus vãos revelam o azul do céu. Intervalos de concreto e sombras. Dobrando a vontade do sol entre dia e noite. Com portas e elevadores. Escadas e janelas. O asfalto quente castiga. O verde se encolhe por entre as frestas. E se contorce subindo os tijolos. Alguém atende a um telefone celular: "- Alô! Não posso falar". Sem parar de andar. Pouco tempo para pensar. No intervalo é preciso respirar. Gravatas sufocantes. Bolsas a tira colo. Passa um ônibus lotado de Marias e Joãos. Todos cansados de um dia de trabalho sem fim. Corpos violados que seguem o caminho das camas. Buscando algum sonho que valha a pena. Para suas almas que não são pequenas. Mas que vivem e morrem sobre es...