Um presente indesejado.
O dia amanheceu. Como sempre ele o via lá. Parado. Sobre seus dois pés cansados. "- Se ao menos pudesse ouvir tua voz - ele lamentou - teria tanto para conversarmos..." O rio os separava de forma semiótica. Todas pontes que haviam sido construídas foram metaforicamente derrubadas. Por vezes, as aguas do rio eram violentas e turvas. Haviam os dias em que eram calmas e transparentes como em contos de fada. Mas mesmo nesses dias, ninguém o atravessava. Não se arriscava nem um aceno que fosse. Atravessar jamais foi uma opção. Do silêncio das duas bocas, tudo que se podia ouvir eram os olhares. E ainda assim, somente um observador extremamente astuto conseguiria distinguir a educação exemplar do desejo ardente, que se revelava com o dilatar das pupilas diante de seus olhos cruzados. E a todo sol o mesmo ritual se repetiria. Cada qual do seu lado. Cada um Rei de seu castelo vazio. Até que um dia... ... um deles esperaria sua companhia silenciosa chegar. Mas ninguém apareceria. O si...