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A mostrar mensagens de julho, 2019

Belchior e eu.

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Belchior desliza dos meus fones direto para o meu cérebro. Escorre o veneno da boca desse bicho peçonhento que me observa. Meus olhos vermelhos soltam fumaça ao invés de lágrimas. Brilha o céu, é noite, mas o sol resolveu aparecer. Confusão mental e eu me sinto dentro de um sonho. Meus longos diálogos foram substituídos por um silêncio gordo e estático. Não, eu não vou deixar que vocês deem um troféu ao meu algoz. Nenhuma liberdade pode ser presa por barras de ferro ou tijolos de pedra. Ouço o vento chegar. Que saudade frio, por onde tu andavas? Meu corpo é deslocado a 20 metros de altura e arremessado ao infinito depois disso... O planeta terra é gigante. Mas diminui muito. Fica do tamanho de uma quilica. Distante e solitário. Penso: ainda dá pra voltar... Tá todo mundo lá. Giro e desviro girando e desvirando. Perco tudo que conheço de vista. Porque eu ainda estou vivo? Já era pra eu ter morrido. Passo por um jovem garoto, 8 ano...

Ao redor daquele piano.

"- É por isso, entendeu?" - disse o Seu Arnaldo olhando para o neto. "- Entendi vô..." "- Repete então..." - disse o senhor de camisa social fechada até o último botão, calça de linho, meias finas e calçado engraxado.  "- Porque as teclas são de marfim, a madeira é carvalho alemão, as cordas e todo mecanismo são originais de um lu... lu..." - o menino parou de falar. Procurando lembrar da palavra. "- Lu... thier!" - disse o avô sorrindo - "Diz comigo..." "- Luthier..."  - repetiram os dois quase ao mesmo tempo. Felipe, o neto do Seu Arnaldo, aprendeu a entender o amor que seu avô tinha por aquele piano. O instrumento era majestoso, como pianos normalmente são. Preto brilhante, sempre limpo e ocupando um grande espaço na sala de estar dos seus pais. Era tocado sempre, por Martha sua mãe, pelo avô, por Jonas seu irmão mais velho e por seu pai. Felipe fazia aulas, logo depois do seu irmão. Aprendia escalas, alguns aco...