Oi pai.
Amanhece um dia daqueles, ainda noite. Quinta feira, quente, 10 de agosto de 2017. E eu vou trabalhar sem saber se me lembrei ou se não esqueci. Se o sonho que sonhei era meu ou era teu. Sentado no carro eu freio quando as luzes ficam vermelhas. E acelero quando são de outra cor. A música da rádio e os anúncios soam iguais. As ruas são todas uma só. E no piloto automático eu me vejo segurando uma xícara de café com leite sem açúcar que transborda vagarosamente, pingando o chão. Ouço distante, baixinho: "- Moço...". Volto rápido, como água dragada por um ralo. Recordo do mundo real. Escorro e acordo. "- Oi... desculp..." - respondo envergonhado. Corte seco da narrativa. Estou sentado no computador e meus dedos dançam pelo teclado. Me percebo diferente quando escrevo. Trançando lembranças, sentimentos e linguagem não falada. A escrita é mesmo uma safada. Ela arranca do peito as palavras que pesam como chumbo. E eu deixo. Sinto novamente sensações esquecidas. Me lem...