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A mostrar mensagens de setembro, 2015

Quem é você?

Passou por mim. Ombro a ombro na calçada.  Nos olhamos por alguns míseros segundos. Aquele olhar de quem se olha só para não se esbarrar. Ele continuou o caminho dele. Nem me viu, eu acho. Eu espero leva-lo para sempre comigo. Eu estava de sapato, ele de chinelo. Estava trabalhando. Ele tinha o rosto cansado. Eu tinha comido, e falava no celular. Ele carregava uma sacola de lixo nas costas e parecia pesado. Eu dava passos largos, tinha pressa. Ele, parecia decepcionado. Mas com o que? Comigo? Com todos nós? Ele era tão frágil. Eu acordei com meu celular tocando uma musica que pude escolher. Ele usava o sol. Sol após sol, ele já nem lembrava mais quantos eram. Filho de um João e de uma Maria. Filho de um Pedro e de uma Silvia. Filho de um pai e de uma mãe que nenhuma diferença fazia. Eu estudei a vida inteira, me formei na faculdade. Ele catava coisas da rua, tudo na mesma cidade. Quem foi que disse que seria justo? Que a vida precisa de sentido? Talvez Deus não exista, é cada um p...

(não) voltei de férias?

Não tenho medo de avião. Mas enquanto voava pensei em como seria morrer num acidente aéreo. Assim que pousamos, achei isso uma grande bobagem. No taxi que não era Ubber, mas deveria ter sido, ouvi que o país está no buraco. Nas paredes pichadas da cidade grande, muitos desenhos morriam. Até no chão tinha sangue. Nos rostos escondidos, por trás dos grandes prédios, eu via também rostos de mendigos. Uns usavam terno e gravata. Outros tinham pouco.  Poucos dentes.  Pouco o que fazer . Pouco para esperar.  Quase nada pelo que viver? Imaginei um viaduto limpo. Mas na terra do céu de concreto, não há amor. Dizia a letra do Criolo. Se há amor eu não sei. Mas aqui as pessoas não estão de férias. Eu tinha areia entre os dedos dos pés. Um copo com gelo nas mãos. Meus olhos alcançavam até a linha do horizonte. E só havia água. Sol forte. Céu azul. Na cidade grande, da fumaça e do fuzil. Eu uso óculos escuros com medo de ser assaltado. Da violência que eu vejo na rua, espero que ...

Eu vou guardar tudo o que eu escrever só para mim.

Eu disse que as palavras me fugiram. Escrevi isso em um bilhete e o guardei. Perdi o bilhete e depois o encontrei. Não entendi o que eu quis dizer. Então o rasguei. As palavras,  depois achei. Não entendi o que diziam. As mudei. Troquei ordem. Acentuação. E tom. Falei para mim mesmo. Usei o espelho. Vidro da janela. Disse que seria bom. Tropecei tentando. Passo é pulo da alma. O choro me enxágua. Dia e noite. Abraço de tchau. Até logo, tu me disse. Até quando perguntei. Sozinho e sem resposta. Eu fiz uma aposta. Apostei comigo mesmo que iria vencer. Assim não posso perder. Quando luto contra mim, o que sobra vai além do fim. Quando me batalho, eu mesmo me faço nascer. Como um novo começo. De páginas iniciais. Nada além de palavras. Aquelas que eu te dei. Que tanto procurei. E que ninguém mais tem.